A exposição “Arte à primeira vista – páginas de uma história” nasceu de nossa experiência como educadoras de museus de arte. Com base no contato com professores e estudantes em cursos e visitas a diferentes instituições culturais, pudemos perceber as dificuldades que os públicos iniciantes em artes têm em reconhecer nas proposições dos artistas contemporâneos o que a história chama de Arte.
Diante desse contexto criamos o Programa Arte à Primeira Vista, em 2005. Primeiramente, focamos na publicação de livros que apresentam a produção de artistas contemporâneos brasileiros para o público infanto-juvenil. Paulatinamente, o programa estendeu-se para outras ações de formação e mediação, que culminaram na organização de exposições que tem por principal intenção a possibilidade de apresentar aos públicos iniciantes em artes em geral os diversos processos, conceitos, proposições, linguagens, suportes, materiais e espaços presentes nas obras de artistas da coleção Arte à primeira vista. Realizamos inicialmente mostras individuais itinerantes, em cidades como São Paulo, Salvador, Fortaleza, Brasília, Belo Horizonte, São Carlos, São José do Rio Preto, Araraquara e Sorocaba. Em 2012, fizemos um primeiro exercício curatorial, buscando confrontar as obras de vários artistas simultaneamente, realizando uma mostra coletiva, com ênfase nos livros da coleção Arte à primeira vista.

Assim, é importante afirmar que a exposição realizada em 2014, no Palácio das Artes, constitui uma ação inédita do programa, por possibilitar um novo exercício curatorial em que pudemos reunir, na Galeria Alberto da Veiga Guignard, um conjunto representativo dos diferentes aspectos da produção dos artistas que pesquisamos desde o início do programa, oriundos de coleções particulares e acervos de vários museus e instituições culturais brasileiras. Por meio delas, nossa proposta é abordar uma variedade de proposições possíveis diante das questões da arte e da vida.

A mostra “Arte à primeira vista – páginas de uma história” é, portanto, fruto de nossas pesquisas sobre públicos, exposições e publicações de arte e processos de mediação e educação em instituições culturais, e carrega na seleção de obras, na expografia e em sua programação, muitos dos aspectos que consideramos importantes no trabalho de apresentar a arte aos públicos.

Compreendemos a expografia como um dos aspectos fundamentais da mediação, na medida em que prevê não apenas a forma como as obras serão exibidas em ambientes para os públicos diversos, mas também as possibilidades de se relacionar com as obras considerando aspectos variados da mobilidade, da percepção e da reflexão durante as visitas mediadas e percursos individuais em exposições.

Nesta mostra, a maneira como planejamos o espaço demandou a criação de dispositivos para descanso, criação e leitura, os Bibliobancos, que acolhem publicações sobre os artistas, como catálogos variados e livros da coleção Arte à primeira vista. Além disso, foram elaborados seis Espaços-ateliê, estruturas que convidam os públicos a vivenciar exercícos criativos de reflexão e percepção de espaços, materiais e processos artísticos, inspirados livremente em ideias e pesquisas dos artistas em foco.

A programação paralela à exposição prevê a realização de visitas mediadas, oficinas e cursos de formação para públicos diversos. Além disso, como forma de contextualizar aspectos da criação das obras da exposição e proporcionar o acesso a informações relativas aos artistas e obras, selecionamos documentários, vídeos e filmes para exibição programada durante todo o período da mostra.

“Arte à primeira vista – páginas de uma história”

Na fachada do Palácio das Artes, um bordado de cores, ponto cruz sem linha, se projeta no espaço criado por Regina Silveira, modificando nossa percepção do lugar da arte e do observador. Desde a rua começa nosso percurso de descoberta da exposição. As linhas e cores também constroem as idas e vindas de Leonilson, que pinta e borda, ponto a ponto, dia a dia, sua trajetória de vida, com tinta e pincel, letras e números. Durante sua vida, o artista registrou em agendas e cadernos seus pensamentos, notas de viagens e anotações para futuros trabalhos.

Letras mexem e remexem a obra de Mira Schendel, sem avesso e sem direito. Reconhecemos os signos gráficos, riscos e traços, marcas do lápis, da tinta, da mão que registra o vazio da transparência. Entre suas experiências a artista produziu inúmeras obras com letras e palavras manuscritas, datiloscritas ou, ainda, com letras autoadesivas.

O vazio, deixado pelo homem depois do fogo que destrói a mata, é recolhido por Frans Kracjberg, que usa os restos das queimadas e os transforma em objetos de denúncia dos crimes ambientais. O artista utiliza diversos materiais naturais para compor seus trabalhos, como pedras e pigmentos imprimindo à arte a beleza da natureza.

Geraldo revela outros mundos possíveis, novas paisagens que surgem em suas imagens. Fotografias que montam e remontam o seu olhar, transformando o que foi observado em algo além do clique da máquina. Juntando, recortando e colando os negativos de fotos guardadas, o artista criou uma nova maneira de revelar imagens fotográficas.

Além do olhar, a obra para tocar e experimentar de Lygia Clark nos esconde e nos revela, nos colocando corpo a corpo com as perguntas:

O que é arte, afinal?

Que história é essa que vai da arte para o mundo e do mundo para a arte?